POEMAS: (1956)



(Poemas:, MARIA HELENA, Lisboa, 1956, 117 páginas)






Capa de Nuno António

Ex-libris de
Álvaro Duarte de Almeida






MARIA  HELENA




POEMAS:



LISBOA
1 9 5 6





DEDICATÓRIA




PARA

MARGARIDA LOPES DE ALMEIDA








DA INVISÍVEL PRESENÇA


Não sei se foi o silêncio da noite que te trouxe
E te deixou a arder na última parcela
Das mil parcelas que me constroem.
Sei que chegaste e que a Lua não se multiplicou
Por si mesma
Nem os pólos do mundo se inverteram
Nem os homens se amaram todos como irmãos.
O vento continuou chagando a terra
De folhas arrancadas,
Pondo nos lagos tentativas de marés;
As águas traziam na alma o segredo nas nascentes
E a certeza das securas que matariam pelos caminhos.
Nada perdeu a origem realizada;
Nada ganhou direcção desconhecida.
A expressão continuou intacta
Sem contracções vermelhas de imprevisto
Ou mal disfarçados sulcos de espanto.
Só as minhas mãos se arrendondaram
Num afago sem possível realização;
Só a boca ímpar me doeu
De inércia e de vazio;
Só as horas se me cavaram no corpo
E a minha carne transbordou de minutos
Completamente inúteis.



DA ÚLTIMA CONCLUSÃO


Agora, que toda a casa adormeceu
Do sono de todos;
Agora, que as luzes cerraram as pálpebras
Fatigadas de inúmeras horas
De idêntica intensidade;
Agora, que os espelhos calaram a sua voz
De imagens reflectidas;
Agora, que a morte de cada minuto
Me vai aproximando da minha morte definitiva;
Agora, que os meus próprios olhos vêem as coisas
Na medida exacta das suas dimensões,
É que eu encontrei a certeza da última ruína
E de que nunca mais poderei recomeçar
Qualquer viagem inicial.




DA NOITE ABSOLUTA


Não é o silêncio das coisas que me transborda a alma
De terrores nocturnamente infernais;
Não é a mudez das formas e das cores,
Das asas adormecidas e das mãos em repouso.
É este silêncio de mim que me enche de gritos
Que eu não oiço, porque os não sei gritar;
É este pranto que me não sai dos olhos
Porque em meus olhos o secou
O vento de todas as desgraças;
É esta ausência de tudo quanto era eu
A impor-me nìtidamente a suspensão da vida,
Sem que a Vida tome a misericordiosíssima atitude
De me entregar toda à Morte.




DA EXISTÊNCIA CONDICIONADA


Procurei-me na força que impõe
Direcção aos ventos
E convulsiona as águas dos oceanos,
E não me encontrei.
Procurei-me na quietação forçada das pedras
E na calma erecta dos troncos,
E não me encontrei.
Devassei alturas e abismos;
Turbilhões de espumas e de Estrelas;
Consciências de impenitentes e de arrependidos.
Procurei-me com o ímpeto do rebento
Em busca da superfície,
E não me encontrei!
Então, fragmentada pelo meu próprio desespero,
Deixei de me procurar
E foi assim que me encontrei intacta
No silêncio que se distende
A todo o comprimento da noite.




DO REGRESSO TRÁGICO


Cheguei dum país em que as fronteiras eram uma ausência
E as muralhas uma negação.
Vinha com os olhos cegos da luz dum Sol
Que não conhecia a imposição da noite
Nem o contacto das nuvens.
Trazia nas mãos todos os perfumes
Das flores tocadas
E na alma o sulco humano
De todos os sonhos consentidos.
Mas o regresso à violência da terra
Esgarçou-me a luz dos olhos
E a intenção dos movimentos.
Rasguei a pele na tragédia das fontes sem água
E nas arestas dos corações
Dos que deviam querer-me como irmã.
Os espinhos da maldade
- Premeditada ou inconsciente -
Que limitavam as bermas da estrada,
Forçaram-me a deixar pelo caminho
Os pedaços totais
Do meu manto de bondade.
Desiludida, nua, completamente destroçada,
O Destino nada mais me consente
Além da recordação daquele país
Onde as fronteiras eram apenas uma ausência
E as muralhas uma negação.




DO ESTIGMA INEGÁVEL


Se fosse possível ultrapassar a desilusão
E ceder às exigências do Tempo...
Se à minha voz regressasse
O ritmo das palavras com intenção
E a sonoridade dum riso consentido...
Se as minhas mãos pudessem ainda desenhar
O esboço dum afago
Ou a curva dos dedos entrelaçados...
Se eu pudesse gritar-me às montanhas,
À serenidade dos lagos,
À face indiferente dos homens...
Ainda que toda a intensidade da Vida
Se apoderasse de novo da minha morte,
A dor continuaria latente no meu fundo,
Como o vento fica suspenso
Nas velas dos moinhos parados
E o Sol persiste oculto
Na abundância das colheitas.




DA RECUSA TOTAL


Numa incontida rebentação da dádiva,
Dei tudo quanto em mim existia
De absoluto e disponível.
Dei-me ao contacto das flores colhidas
E à cor irresoluta das ondas
Que é impossível colher;
Dei-me à imposição de todos os ventos
Que desmancharam os meus cabelos
Sem harmonia nem consentimento;
Dei-me à insensibilidade dos homens
Que vestiram de ridículo
A magnanimidade do meu gesto.
Agora, que me vejo sem mim,
Nem homens nem ventos nem ondas nem flores
Aceitam a minha dádiva...
...E nem sequer me restituem...!





DO LÚCIDO MOMENTO



Que farei, agora que o contorno se definiu
E o Tempo se antecipou?
De que hei-de realizar as minhas horas,
Se as tenho incrìvelmente vazias
De adesão, de raízes, de intimidade?
Como continuar na estrada que a Vida me impõe,
Se a mesma Vida a deixou
Erma de sombras e de fontes e de voos?
Como esboçar qualquer tentativa de ultrapassagem,
Se a minha limitação reconhece
A impotência do meu desespero e a inutilidade do meu pranto?
Que farei, agora que tudo se desintegrou
E nem consigo ver Deus
Para lá da injustiça da minha própria desintegração?



DA INTEIRA VERDADE


Porque nenhuma aproximação
Me faz desejar o dia de amanhã,
Passam-me as horas alheias
À continuidade das flores
E ao regresso das Estrelas.
Insensível à metamorfose da luz
E à realização do Tempo fraccionado
Pela invenção dos minutos,
Olho o mundo submerso em ruínas e naufrágio,
E apenas sinto nas veias
O supremo rumor daquela desilusão suprema
Que fica a ritmar o coração
De todos os vencidos.




DA ÍNTIMA CONVICÇÃO


Quando eu partir,
Não é dos homens que espero mais saudades,
Mas sim das coisas:
Talvez as rosas procurem os meus dedos mortos
E derramem o bálsamo do seu perfume
Onde se diluiu a intenção do seu último gesto.
Talvez o vento se esconda no silêncio das folhas
Para não macular de agitação
O eterno sono dos meus cabelos transitórios.
Talvez as Estrelas entrem mesmo pelas janelas fechadas
E chorem sobre os meus olhos apagados
Uma piedosíssima lágrima de luz.




DA MÚSICA OUVIDA


Oh! a alucinação desta música
Que tem feições humanas
E a quentura de corpos aproximados!
Oh! a expressão carnal desta melodia
Que me deixa os nervos descompassados
E me priva de todo o ritmo da serenidade!
Oh! a presença física duma ausência total
Impondo à minha alma sem encontro nem espera
O movimento pendular da recordação!




DO RITMO QUOTIDIANO

E assim será
Até ao último instante dos mundos:
Agora, a manhã cheia de luz
E de asas abertas,
Depois, a noite cheia de sombras
E de asas fechadas...




DA MORTE APROXIMADA


Depois,
Ficarei livre da fragilidade dos meus braços
Despedaçados de encontro ao muro
Da renúncia premeditada...
E do oiro dos meus cabelos
Desesperadamente intactos...
E do esforço dos passos
Que me levam à Eternidade
Pelo caminho das horas...
E da continuidade dos dias
Pondo nos meus ombros humanos
O peso derramado de todos os séculos...
E das exigências do Tempo
Limitando as fronteiras do meu corpo
Sem limitar os ímpetos do meu sangue...
E deste desejo incoerente, raivoso, animal,
De me agarrar alucinadamente à Vida,
Apesar de tudo...



DA INCONSCIÊNCIA DESEJADA


Fosse eu igual ao vento
Que desfolha rosas vermelhas
E despenteia ramarias verdes,
E fica incolor!
Fossem as minhas mãos
- Saturadas de desesperos subjectivos -
Como são as mãos do vento,
Isenta da angústia vertical
Dos segredos revelados,
E dos silêncios que amordaçam a boca
Dos que têm razão,
E da íntima ausência que inibe todos os contactos
Mas ainda consente todas as esperas!
Fosse eu igual ao vento,
Sem reacções, sem afundamentos,
Sem voos, sem limites,

- Que o vento chega, morde ou beija
Embala ou açoita,
E depois parte para novos mundos
Sem se ter dado conta
Nem do sossego dos mortos
Nem da inquietação dos vivos!


DO TEMPO CUMPRIDO


Cada hora que o dia me dá
Traz fechada na mão
A certeza do meu nocturno desespero.
Todos os minutos gritam duma verdade a realizar-se
E se compõem da inevitável aproximação da noite.
No meu corpo (desencontrado da Vida)
Lateja o pavor das quatro paredes que me sufocam
De silêncio, de insônia, de linhas ofensivamente rectas
Perante a curva dos meus ombros vergados.
Mais tarde, na quietação da noite a cumprir-se,
Toda eu vibro e me resvalo e abato
Ante o fantasma corporizado do meu desespero
- Aquele desespero que o dia já morto me trouxera
Fechado na mão de cada hora.


DO INSTANTE REALIZADO


Qualquer coisa de mim ficou suspensa
Na partícula de Tempo que a Eternidade levou.
Talvez um pensamento informe, assexuado,
Paralelo a tantos pensamentos
Que não ousam definir-se...
Talvez o desejo sem eco nem direcção
De uma dádiva, de um rio sereno,
De uma estrada mais larga,
De um luar qualquer...
O súbito momento vestiu a expressão dos meus olhos,
Num frémito de luz.
Vibrou no ar parado da ausência
De todos os ventos,
A curva do gesto que a minha intenção
Não chegou a concluir.
Depois, tudo retomou o equilíbrio inicial
E o átomo que de mim mesma se desagregara,
Diluiu-se na realidade efémera
Da sua própria existência
Até se integrar no pó
De todos os caminhos...



DO SILÊNCIO ABSOLUTO

Um silêncio absoluto
Anulou todas as cadeias que me ligavam à Vida:
As mãos tombaram-me desfalecidas
Quase no início da tentativa frustrada;
Os olhos fecharam-se sem resistência,
Não sei se da fundura das lágrimas,
Se do excesso do Sol.
Tudo ficou inerte dum silêncio tão intenso,
Que se ouvia correr o sangue
Dentro de cada veia.
Agora, pode o oceano afogar o mundo
Num turbilhão de marés;
Pode o vento encher a terra de pavores
Com o grito cortante do Nordeste;
Pode a maldade dos homens
Erguer-se acima da sua altura natural...
Nada quebrará este silêncio
Que é tão grande, tão verdadeiro, tão intacto,
Que até me deixa ouvir dentro da alma
A ausência total do som.



DA FOLHA CAÍDA


Todos os homens gritaram do princípio das Idades
Que se devia exterminar a raiz,
Porque um vento de loucura
Arrancara a folha incalculada.
Mãos colectivas e anónimas
Apressaram a desventrar o silêncio da terra
Na esperança de encontrar uma explicação
No movimento circulatório da seiva.
Mas a terra era demasiadamente maternal,
E a fundura das raízes não cedeu!
Então os homens que gritavam do princípio das Idades
Foram buscar todas as enxadas
E tentaram dilacerar com a acidez dos golpes
O mistério progressivo do crescimento.
As mãos em sangue do contacto mal-intencionado,
As frontes gotejando um suor de injustiça,
Os homens que gritavam do princípio das Idades
Não conseguiram localizar a fonte
Do húmus inicial.
Eram os dentes de raiva apertados e desfeitos
Dentro das bocas secas
De qualquer palavra de misericórdia;
Eram os ossos rangentes do esforço desesperado
De arrancar da quietação da fundura
A revelação do segredo inatingido;
Era tudo quando existia de fúria e desespero e inferno
A avolumar o intento da acção conjunta
E a multiplicar as possibilidades musculares
De todos os homens que gritavam do princípio das
                                                                         {Idades.


E a folha?
Ao sabor caprichoso dum vento de loucura,
Cumprindo o seu destino de folha arrancada,
Espiava sob os pés da multidão enfurecida
O pecado original
De ter nascido folha...



DA CONSUMAÇÃO FINAL


É agora que eu choro e grito e uivo,
Dentro da solidão inviolável
Que destrói os meus dedos, uns de encontro aos outros.
É nesta hora vazia de todo o sentido,
Sem partidas humanas
Nem regressos divinos,
Que a esterilidade do meu Destino
Alcança a plenitude formal
Da sua estatura verdadeira.
É neste sossego que me esmaga de silêncio
E de inibição e de suor e de certezas,
Que o mundo perde o equilíbrio
E retrocede ao caos da nebulosa originária.
É neste Sol - que eu não posso impedir que seja luz -
Que se derrama a vastidão da minha revolta
Onde já estava derramada a vastidão
Da injustiça dos outros.
É neste minuto de íntimo despedaçamento
Que eu desço ao abismo da minha maior fundura
E só encontro a sombra da minha sombra
A velar o cadáver ainda intacto
Da minha vida recém-morta.



DO DESTINO VIVIDO



Da tua mão tombou a grande pedra
Que inibiu meu caminho.
Da ausência dos teus olhos
Nasceu a sombra que anoiteceu os meus.
Da curva do teu gesto
Aconteceu a súbita crispação
Que plasmou o meu cântico de vitalidade
Num silêncio impremeditado.
Da tua voz - isenta de volumes e cromatismos - 
Ergueu-se o grito que apagou na possibilidade da noite
O germe de qualquer manhã.
Do recorte do teu perfil sem feições
Brotou a linha inútil e assimétrica
Do meu pensamento convulsionado.
Tudo rompeu num movimento de expansão
Das tuas dimensões inconcebidas,
Da tua existência negativa.
Eu te maldigo
Com a pele e a alma e o coração e os músculos!
Eu te maldigo pelas Estrelas que o meu sonho
Jamais acenderá em nenhum Céu!
Eu te maldigo pela destruição absoluta
De tudo quanto em mim existia
De humanamente divino
E divinamente humano!
Pelas rosas impossíveis de todos os jardins!
Pelas ondas falhadas de todas as marés!
Eu te maldigo
Com aquele nada que resta de mim mesma,
Com a totalidade das minhas cinzas
E a montanha realizada dos meus escombros.
Que os teus olhos sem olhos
Ceguem das lágrimas que me tens feito chorar.
Que os teus dedos, privados de qualquer forma,
Se triturem entre si na alucinação da impotência.
Que sintas na esterilidade das tuas veias
O desespero que circulou nas minhas
Quando me privaste de azul e de distância,
E mataste para sempre o impulso das minhas asas
Mudando em chão a altura do meu voo!



DA DESTRUÍDA FÉ 


Porque o facto se ergueu
Antes da insinuação de qualquer princípio,
Tudo se realizou sem o pormenor
Da mais íntima expectativa.
O vento foi e veio mil e mil vezes,
Trazendo nas mãos o vértice
Das montanhas geladas
E o rescaldo das insolações tropicais;
A Morte chegou e partiu
E inexplicàvelmente levou uns
E inexplicàvelmente deixou outros;
O movimento cósmico dos seres e das coisas
Não quebrou o seu ritmo fecundante
E a Vida gritou alto dentro do coração
Dos limos e das pedras.
No entanto, no fundo mais fundo do fundo,
O facto lá estava erguido a toda a sua altura
-Enxurrada a avolumar-se de atitudes diabólicas,
Arrastando no excesso da sua devastação
Tudo quanto ainda me restava
Da crença nos homens.



DA CONTINUAÇÃO INDESEJADA

Ah! tudo quanto em mim ansiava realizar-se,
A mão dum "Por quê?" o levou
Para longe de toda a provável realização.
Para imobilizar a crueldade do gesto,
Não bastou a antecipada certeza
Das noites ermas de sono,
Dos dias ermos de luz.
Hoje, que todas as distâncias estão vedadas
Às minhas íntimas viagens,
Que os meus ouvidos estão fechados
Para a harmonia de qualquer cadência,
Que as raízes já não encontram fundura
Para o milagre da floração,
Onde hei-de encontrar a esperança do descanso final,
Se nem as mortes consecutivas da minha alma
Conseguem matar meu corpo!



DA CHEGADA INADIÁVEL


O Tempo veio e com ele a dissecação
De todos os meus movimentos.
Alguém abriu fossos à minha roda
E pressinto inúteis escavações
No terreno fechado que me limita.
O vento traz-me  rumor deformado
Do aço mordendo a impenetrabilidade do granito.
Multidões de olhos procuram descobrir
A minha nudez total,
Porque hora a hora eu reforço a textura 
Do manto que me cobre totalmente.
Passos idênticos e paralelos
Maculam de inquietação
A poeira virgem do meu caminho.
A desarmonia ergue-se de todos os ângulos do mundo
Regida pelo intento infernal
De quem se esqueceu do ritmo divino...
E eu?
Eu permaneço fiel à evidência das horas,
Porque, se o Tempo veio e com ele a dissecação
De todos os meus movimentos,
O Tempo um dia partirá e levará consigo
Os movimentos e as dissecações
E as multidões de olhos
E os passos idênticos e paralelos...



DOS VÁRIOS ACONTECIMENTOS


Aconteceu
Que as Estrelas não se precipitaram sobre a terra
Em catadupas de imprevisto;
Aconteceu
Que os montes permaneceram estacionários
Sem a mais legítima reacção
Contra a ausência de todos os movimentos;
Aconteceu
Que as sementes não deixaram de germinar
E continuam sofrendo em silêncio
As dores do seu parto vegetal;
Aconteceu
Que só as minhas mãos desobedeceram 
À imposição dos gestos matemáticos
E à iniciativa de vontades alheias;
Aconteceu
Que heròicamente suportei a inclemência da secura
Tendo ao alcance da minha sede
O convite recusado duma fonte...
Aconteceu
Que endoideci da verticalidade da ascensão
E que só depois da queda realizada
Me lembrei de que, para poder voar,
Apenas tivera a intenção do voo...



DA FALHADA ESPERANÇA


Ruiu-te em mim o Destino e no entanto
Por ti, sepultei a minha alma
Num abismo de propositado sangue;
Por ti, enxuguei as minhas inúmeras lágrimas,
Para que, sem elas, conseguisse ver de novo
O crescimento das flores;
Por ti, dei um sentido desassombrado
À hesitação das minhas horas
E enchi duma esperança viva
A morte que me caía das mãos;
Por ti, julguei amanhecer a minha noite de saudade
E pedi ao Tempo que não fosse tão depressa
Para que a Vida pudesse ir mais devagar.



DA SUPREMA VIBRAÇÃO


Este momento, completamente descarnado
Do mais embrionário intuito,
Trouxe consigo a apatia duma aceitação total.
Abandonei-me aos actos impensados da Vida
Com a indiferença amarela e outoniça
Das folhas agonizantes.
Nada me transbordará,
Nem imposições de dádiva
Nem receptividades de promessa.
Não me absorve o Passado nem o Futuro:
Estagnei-me num mundo incriado e suspenso
Entre o desejo das minhas mãos
E a sombra das minhas mãos.
Multipliquei-me no contacto absurdo
Dos mil silêncios preparados
E das mil solidões impostas.
Eternizei-me na Hora que chegou
E ficarei a vibrar na corda invisível
Dum mais invisível arco,
Até que a minha íntima vibração
Consiga ultrapassar a teoria dos séculos!



DO PRANTO REVELADO

O dia chegou e trouxe em si
O potencial criador de todos os dias:
O Sol destruiu o silêncio esfíngico das trevas
Com o grito decifrado da sua luz;
Os passos ganharam direcção exacta
Ante a realidade das estradas esclarecidas;
O ritmo da Vida despertou o compasso de espera
Que as exigências do sono lhe haviam imposto.
E, no entanto, o dia que chegara e em si trouxera
O potencial criador de todos os dias,
Não era igual a todos os outros dias
Desde o começo do mundo ao fim do mundo.
Nele a insídia havia preparado
A gestação inesperada dum momento terrível.
Nele a amargura escavara um abismo
Na carne viva dum corpo
Que uma súbita morte decompusera.
Deturpado o sentido verdadeiro da sua finalidade,
Com nódoas de tragédia a violar-lhe o azul,
Quando a tarde chegou para render o dia,
Encontrou-o entre as sombras do crepúsculo
A soluçar desesperadamente
De raiva e de vergonha!



DA BELEZA FINDA


Afinal, a Beleza íntima das coisas
Não estava nelas,
Mas sim na alma onde eu as sentia.
Se hoje as Estrelas não têm luz
Nem as rosas perfume
Nem as ondas sargaços,
Nem sargaços, nem perfume nem luz
Eram uma realidade:
Apenas a minha intenção é que dava
Sargaços às ondas,
Perfume às rosas,
Luz às Estrelas...




DA DESISTÊNCIA INTEGRAL


Qualquer esboço de insistência
Não passaria duma acção falhada.
Nada me unifica com o exterior
Nem me desenha a esperança dum regresso.
Morta sem ressurreição,
A Vida esbate-se na maior distância
Até ao vácuo absoluto.
Inútil, o esforço duma luta
Que não coroaria de loiros a minha vitória
Nem de opróbio a minha derrota.
Nada alteraria o perfil de cada coisa
Singularmente parada
De quotidiano e de habituação.
As tonalidades dos meus diversos sentimentos naturais
Confundiram-se tanto na raiz,
Que hoje tudo me tem a cor a cor amorfa
Duma sombra projectada.
Sim! Todo o esboço de insistência
Não seria mais do que um acto perdido!
Não é possível insistir, permanecer,
Quando não se encontra na nossa própria natureza
Nem o mais frágil vislumbre de permanência
Nem qualquer humano indício de continuação.



DO ROSTO VELADO


Para lá da aparência do meu ser,
Fica a altura e a profundidade
Do meu abismo de mim.
Todas as palavras que os meus sentidos
Me obrigaram a pronunciar,
Dormem no sossego do esquecimento,
Cansadas de insistência e de realização.
Todos os passos que me levaram
Aos mais desencontrados fins,
Viram o seu ímpeto sufocado
Pela areia desértica da minha estrada.
Que me importa que o Tempo
Se esqueça de que é Eternidade
E continue sujeito a limitações
E fragmentado pelas horas?
Que me importa que as Estações
Se multipliquem e sucedam,
Se em todas as latitudes do meu ano
Só há espasmos outonais?
Que me importa que os outros me vejam
Como eu, de facto, não sou,
Se afinal eu só sou o que não sou
Para que os outros me vejam?



DOS SEGREDOS REVELADOS


Sei! Humanamente sei
Onde me leva a direcção
Dos mais diversos caminhos.
Para lá de cada curva
Já não moram a surpresa e o inesperado,
Porque eu já ouvi todas as palavras que é possível dizer
E chorei todas as lágrimas que os olhos podem chorar.
Não há paisagem alguma que me seja inédita
Nem pela beleza nem pela brutalidade nem pela doçura.
Sei! Humanamente sei
Que para lá do meu conhecimento
Nada mais existe no mundo
Além dos enigmas decifrados.
O vento contou-me os segredos
Das distâncias intransponíveis;
As águas das nascentes revelaram-me
A origem cósmica da sua frescura;
O Sol disse-me a extensão das viagens
Das asas que vão de continente a continente.
Sei como se apagam as camélias
e florescem as Estrelas;
Sei onde me levaram os meus passos
E onde os meus passos me conduzem;
Sei onde vai dar a directriz de cada nuvem
E a espuma de cada maré.

Morte! Morte! Leva-me contigo,
Porque só tu me poderás levar
Onde eu não sei!


DA HUMANA INTERROGAÇÃO



O Sol - arroteada a charneca nocturna -
Entrou pela janela da manhã,
Adolescente e loiro.
Tìmidamente, quase num pavor infantil,
Caminhava seguro à sua própria palidez,
Numa hesitação de iniciado.
De olhos metálicos e duros da ausência do sono,
Eu seguia a sua trajectória de luz
De alma impermeável à mais ínfima partícula de calor.
Do pensamento escorria-me um frio desmesurado
Que gelou as inesperadas resoluções
E a fonte incompreendida
Da minha imensa ternura.
No meu corpo imóvel, de veias inertes,
Parara o contorno duma angústia
Que o Tempo jamais conseguirá vergar
À lei de qualquer possível transformação.
Oh! a ofensa do Sol insistindo em alegrar o mundo
Com as chamas libertas
Duma alegria acontecida!
Deus! Deus!! DEUS!!!
No meio de tanta claridade,
Que vais fazer do meu princípio
E do meu cansaço
E da minha tristeza
E do meu fim?



DA ÚLTIMA VOZ


Se eu pudesse ficar assim
Imóvel, na serenidade da noite!
Os braços, hirtos e frios,
Sem a humaníssima contracção
Dum abraço reprimido!
Os olhos desmesuradamente vivos,
Bebendo a angústia do Tempo sem espera!
Se eu pudesse ficar assim,
Sem vermelhos de sangue
Nem anseios de Altura!
Toda a Vida estagnada à minha volta,
Alheia à formação da seiva
E ao destino das folhas já caídas!
Todo o mundo privado de movimento,
Deserto da afirmativa das asas abertas
E da negação das noites fechadas.
Se eu pudesse ficar assim,
Numa pausa de mim mesma,
Na mais pura abstracção,
Até que o Anjo gritasse
O nome de cada um...



DO ACONTECIMENTO IMPREVISTO


Morta! Morta é que eu estou!
Morta do excesso de amor que ninguém quer!
Morta da febre com que me dou
E da frieza com que me recusam!
Morta do cansaço de estender as mãos
Na transparência do ar
E não sentir outras mãos
Partilhando a cadência do meu voo.
Morta de trazer toda a alma
À flor dos olhos,
Sem que os mais percebam
Que eu tenho olhos e alma.
Morta de mendigar o pão da minha fome;
Morta da cinza que jamais foi brasa;
Morta da ruína em que me transformaram.
Morta de mim, dos meus braços caídos,
Dos meus beijos negados.
Morta! Morta é que eu estou!
Que faz que o Sol nasça ou morra,
Se eu tenho os meus olhos mortos!
Que faz que o mar grite ou cante,
Se eu tenho os ouvidos mortos!
Que faz que a flor abra ou murche,
Se eu tenho os meus dedos mortos!
Que importa que tudo aconteça
Ou não aconteça,
Se eu estou morta, irremediàvelmente morta,
Morta da Vida que não quer partir!
Morta da Morte que não quer chegar!



DA VERDADEIRA IMPOSSIBILIDADE


Impossível! Completamente impossível!
Já não chega a presença da manhã
Para acreditar na realidade do dia.
Já não me basta a certeza do perfume
Para não descrer da existência das rosas.
Todo o mundo interior das minhas emoções
Perde o equilíbrio e se precipita
Num turbilhão de oceanos derramados
E de montanhas em pedaços.
Ah! o estertor das primeiras folhas tombadas
A par da serenidade alvíssima do luar!
Ah! a tragédia das pedras incógnitas e cativas
Sob a indiferença comum das asas em ascensão!
Ah! o amálgama de sentimentos desencontrados
Que me escabuja no sangue
E no pensamento e na alma!
Impossível! Completamente impossível!
Como hei-de continuar,
Se o que me resta de mim
Não chega para ter vida
E é de mais para morrer?



DA TRÁGICA DESESPERAÇÃO


Para lá da amargura do grande Desencontro,
Fica a ruína sem reconstrução
Do Sonho ainda maior.
Um Céu tenso, nocturno, interminável,
Sem outra luz que não seja a ausência de luz,
Pesa sobre a realidade das coisas
E obriga a perder o compasso à corrente dos rios.
As mãos das raízes imobilizaram-se
No sossego da terra,
Num abandono de cansaço e desistência.
Um sentimento obscuro de renúncia
Dói na alma das fontes
E nas asas sem Altura
E na humildade do sal...
Quero ultrapassar a órbita de imobilidade
Onde qualquer iniciativa
Tem um sabor intenso a naufrágio acontecido;
Quero gritar e partir os limites deste silêncio
Que veste a tudo quanto me cerca
A expressão anódina da mais absurda serenidade;
Quero que as coisas se recomponham
E encontrem caminho
E que as chamas se reconstruam da negação das cinzas
E que se esboce uma promessa de flor
Na infecundidade do ventre das pedras...
Quero! Quero! Quero!
Ah! Por que hei-de ser eu sòmente humana,
Se trago em mim a compleição dum deus?



DA VIDA CONSUMADA


Tu, que vieste por todos os caminhos do Tempo
Suportando a realização dos séculos
Até chegares à verdade da minha existência;
Tu, que transportavas nas mãos incriadas
A forma embrionária da minha criação definitiva;
Tu, que deste movimento aos meus passos
E direcção ao meu sangue
E fragilidade aos meus ombros;
Tu, que trazias no segredo do ventre concebido
O contorno exacto do meu perfil
E a cor designada para os meus cabelos,
Olha os meus olhos queimados de sal e de renúncia
E as minhas mãos vazias e despedaçadas
E os meus dias sem culpa nem perdão
E diz-me, diz-me se não tens remorsos
De me teres gerado até ao fim!



DA ESPERANÇA NEGADA


Talvez regresses um dia, mas nesse dia
Eu fecharei os meus olhos cansados
Do contacto da noite
E negarei a realidade de qualquer luz;
Eu saberei impor silêncio
À minha boca abandonada
Para não responder
Com um grito de entusiasmo
Ao entusiasmo do teu grito;
Eu apertarei os braços na ruína do meu corpo
Para que eles não se distendam para ti
Num ímpeto humaníssimo de recuperação;
Eu travarei a coragem dos meus passos
Ante o convite dos teus
E hei-de permanecer imóvel
No deslumbramento da manhã inda menina;
Eu terei forças para passar adiante
E deixar-te a estrebuchar na poeira do caminho
Despedaçada de mutismo e noite e solidão
Como uma vez, sem pena e sem aviso,
Tu me deixaste a mim.



DA REACÇÃO IMPOSSÍVEL


Porque toda a casa transborda da tua ausência
E da incerteza da tua realidade,
É que o silêncio emprestou às feições das coisas
A expressão desmesurada dum espanto sem medida.
Porque a Vida se deixou dominar e vencer
Pela falsa aparência dum acto legítimo,
É que a Morte entrou de surpresa pelas portas fechadas
Sem a misericordiosa preparação
Duma antecipada espera.
As mãos incorporais da noite a realizar-se,
Apagaram o crescimento do luar
Na superfície côncava do Céu.
Sem que os meus olhos as maculassem de interrogação,
Senti que as flores se decompunham
Num silêncio de aromas e de pétalas.
O pensamento cansava-se do desencontro
Na humana procura dum indício
Que levasse à raiz da mais frágil conclusão.
Assim, espasmos, deserções, espantos,
Raivas, escombros,
Tudo se amalgamou e contorceu e cingiu
Ao círculo infernal duma Hora à margem do Tempo,
Uma Hora suspensa, inadiável,
Profundamente,
Tràgicamente inadiável!



DA PHOENIX RENASCIDA

Ouvi a tua voz no meu deserto
E a sombra chegou nas sonhadas palmeiras
Que a minha imaginação enraízara
Na aridez escaldante do solo.
Ouvi a tua voz no meu deserto
E a nascente veio à superfície
E eu enganei a minha secura
Bebendo uma água que só existia
No meu desejo de bebê-la.
Ouvi a tua voz no meu deserto
E o caminho desenhou a sua própria trajectória
E abriu a directriz dum sulco
Na unidade movediça das areias.
A tarde vinha de lonjuras desconhecidas
Vestindo um manto de frescura
Todo pespontado de Estrelas.
O silêncio perdeu a essência do seu princípio,
Esburacado aqui e além
Pela palpitação sonora das asas nocturnas.
Junto à imposição da minha noite física,
Tudo se embebeu dum prenúncio de manhã,
Porque no íntimo mais íntimo de mim
E entre as mil cinzas de forçadas renúncias,
Toda a extensão do meu deserto
Se abriu em sombra e água em direcção
Ao som intemporal da tua voz.



DO GESTO INÚTIL


Já cansei meus olhos de procura,
Já cansei minha voz de cem apelos.
A todos estendi a minha mão,
Não sei bem se para pedir tudo,
Se para tudo dar.
Sei que estendi a minha mão
E quando os músculos se me cansaram
Da insistência do gesto,
A minha mão continuava cheia
Do que ninguém aceitou
E vazia do que ninguém lhe deu.
Para que os outros não lhe surpreendessem
A dor da recusa
Ou a grandeza da entrega,
Enrolei num pedaço de frieza
A completa inutilidade da minha mão.
Proibi-lhe a curva de qualquer aceno,
O impulso gerador do mais frágil movimento.
Velei-lhe a transparência da intenção
Que punha no acto de colher uma camélia
Ou de apontar uma Estrela.
Limitei-a à aparência agressiva
Das coisas inertes e sem significado.
Hoje, se alguém tentar o contacto da minha mão,
Ao vê-las para lá de todas as distâncias,
Há-de sentir na alma o desespero
Dos que chamam até quebrar a voz
Diante do silêncio duma porta
Irremediàvelmente fechada.



DO NÍTIDO PARALELO


Nada me altera a íntima imobilidade!
Sem saudades e sem esperanças,
Sem remorsos e sem glórias,
Estou inerte de silêncio e de reacções
No meio do turbilhão duma vida que me não atinge.
Isenta de quedas e de pensamentos e de voos,
As mãos doem-me de inércia e de infecundidade,
Os olhos queimam-se exaustos
De presença e de distância...
Esvai-se-me a apatia da Hora
O deslumbramento das paisagens estelares
E o pavor humaníssimo de dobrar
A esquina enigmática da Morte.
O sangue, se ousasse latejar-me nas veias,
Seria ao ritmo incolor e sem acidentes
Duma indiferença absoluta.
A alma permanece-me intacta
Ante o desasossego imposto ao vento
Que traz sobre os ombros intocáveis
O peso dum cansaço secular.
Sinto-me estagnada, invibrátil, suspensa,
Igual às pedras dos caminhos
Que apesar de esmagadas por multidões de pés
Que transportam a alegria de uns
E a desgraça de outros,
Continuam a ser apenas
O que Deus manda que eles sejam:
Pedras...!



DO COMPLETO ABANDONO


A manhã nasceu como todas as manhãs,
Carregada de promessas.
Pela vibração da luz ainda indecisa,
Avaliava-se já a apoteose triunfal do meio-dia.
O mar enrolava-se e desenrolava-se
Num movimento continuado de posse e de recusa.
A Vida acordava na garganta dos pássaros,
Nas janelas abertas,
No eco dos primeiros passos.
O silêncio de cada casa
Esgarçava-se entre as mãos do rumor quotidiano.
Tudo acordava do espasmo nocturno
E aceitava com incontido alvoroço
A hipótese do novo dia.
Só eu sentia a pele ensopada de noite,
Uma noite só noite,
Vazia de Estrelas e de sono e de Lua...
Só eu não acordava do repouso estabelecido,
Porque os meus olhos incrìvelmente abertos
Se haviam recusado a dormir.
Só eu via suceder o dia à noite
Como a noite já tinha sucedido ao dia,
Sem o débil estremecimento dum músculo,
Sem um arrepio de fome verdadeira.
Que interessava noite ou dia, dia ou noite,
Agora que me não deslumbra ou engrandece ou diminui
Nem a fundura extrema das raízes
Nem a extrema altitude da folhagem!




DO APELO DESESPERADO


Alastra-se-me o pensamento
Por uma distância que não tem limites.
Por falta de direcção exacta,
Permanece à margem de qualquer forma,
Numa total abstracção.
(De pé, a todo o tamanho da sua grandeza verdadeira
E no recorte definitivo da sua estatura,
Apenas a dor sem remédio de viver.)
Ah! o desvairamento de não poder
Contornar as emoções
E cingi-las à sua dimensão inicial!
Mas como localizar na agitação da maré viva,
O sossego que as águas do rio levaram das margens?
Como descobrir nos ramos da árvore abatida,
Aquele onde os pássaros cantavam mais alto?
Como encontrar na superfície do meu corpo,
Um pedaço de mim onde a Vida não doa?
Homens: poetas ou assassinos, santos ou pecadores:
Venha alguém que padeça de remorsos
Ou de sonho ou de incompreensão,
Mas que saiba de cor o gosto amargo das lágrimas;
Alguém que venha para o meu lado
E vença o abandono a que todos me votaram
E quebre o silêncio 
Que a culpa que eu não tive me impõe
E me liberte da tortura sem nome
De esconder o meu pranto
Da luz apoteótica do Sol
E de o expor inùtilmente
Aos olhos impassíveis das Estrelas. 



DA PRESENÇA IRREVELADA


Não sei quem és.
Porque entraste no meu mundo inconfessado
Pela porta fechada dum silêncio sem interrupção.
Desconheço a cor audaz dos teus olhos,
A expressão indefinida com que me olhas,
E, ao certo, nem mesmo sei se chegas a ter olhos...
Nunca vi o gesto da tua mão e no entanto,
É a tua mão que me aponta um caminho
E se estende para a minha
Num movimento de ajuda.
A tua boca permanece velada
Pelo mais denso mutismo
E, apesar de tudo,
Foi da tua boca que veio a coragem
Que me faltava para ficar.
Não sei quem és, mas oiço-te dentro de mim
Num grito inadiável de presença.
Talvez estejas latente na humanidade do meu sangue
Ou apenas te pressinta na divindade da minha essência.
Ao longo das horas que vão compondo a minha vida,
A tua certeza engrandece-se das certezas
Que as horas me trazem
Na rodagem da minha vida a compor-se.
Nada sei de ti,
A não ser que entraste no meu mundo inconfessado
Pela porta fechada dum silêncio sem interrupção.
Sinto dentro de mim
A imposição motriz da tua vontade
E, apesar da realidade da tua existência,
Não sei se hei-de chamar-te
Saudade ou Esperança,
Amargura ou Promessa
Ou simplesmente Morte...




DA OBRA DESVIRTUADA


Quando o Tempo chegar e em si trouxer
A Verdade sem qualquer contestação;
Quando as Horas caírem da maior altura
Abrindo um caminho de Morte
Na Vida de cada um;
Quando os Minutos descobrirem
O verdadeiro rosto dos factos
E deixarem nua ao grande Sol
A origem do seu caudal de perversidade,
Os pássaros hão-de esconder a glória do seu canto
Na mortalha viva das penas;
As fontes hão-de calar a sua oferta de frescura
No silêncio inicial das nascentes;
Os rebentos hão-de estagnar-se
No sossego maternal dos troncos
E Deus, do alto da Sua perfeição, olhará a Sua obra,
E quedará estático e perplexo
Diante da infernal imperfeição dos Homens.



DA CONFISSÃO PLENA


Não é porque o Céu está excessivamente azul
Que a Vida me dói mais
Nem do calor sereníssimo do Sol
Que o meu frio é mais intenso.
A dor vem duma altura maior,
O frio nasce dum Inverno
Fora do compêndio das Estações.
As águas arrojam-se do alto das montanhas
E, suportando o sofrimento das quedas sucessivas,
Levam a macular-lhes a doçura
A fome quase humana do sal.
Os caminhos alongam-se de imprevisto
E enchem as lonjuras de aproximação.
O vento desenraíza carvalhos seculares
E embala a fragilidade dos ninhos
E arrasa velas e mastros
Transportando nas mãos fecundantes
O beijo sensual das flores.
O ritmo da Vida mantém o equilíbrio
De quando o Senhor impôs litorais às marés
E deu Infinito às Estrelas.
Mas hoje o frio retalha a minha pele
Com dobrada violência
E a Vida dói-me mais no fundo.
Hoje a minha solidão
Avolumou-se de mais íntima certeza,
De impossibilidde física de ser igual ao que fui ontem,
Da mais inabalável descrença na fraternidade universal.
Ainda que todas as rosas abrissem ao mesmo tempo,
Não chegariam para me florir o mundo;
Ainda que o Sol se desdobrasse em mil Sóis,
O seu calor não seria tão penetrante
Que fosse até à distância
Onde os outros me enterraram.
(E Deus sabe que, se pudesse,
Com que renascido êxtase
Eu voltava à superfície!)
Mas os meus Irmãos acharam-me de mais
E prepararam-me o naufrágio!
E ante a frieza dos olhos dos que que me viam soçobrar
Sem me valer,
MORRI!
Não é, pois, porque o Céu está excessivamente azul
Que a Vida me dói mais.
É desta raiva de me ver morta
Quando ainda vivo
Dentro da veemência do meu sangue
E do imponderável do meu Sonho.
É desta raiva de me ver morta
E de não ter ainda fechado os olhos
Para a beleza das coisas
E para a crucificação das lágrimas.
É desta raiva de me ver morta
Pelos meus próprios Irmãos
E saber que Deus viu a morte que eles me impuseram
Sem o Seu consentimento,
E não os desmentiu!



DA NOITE IMPENSADA


A noite veio de onde eu supus
Que só nascia a manhã.
Por isso, quando a sua chegada
Vestiu a luminosidade das horas
De trevas e silêncio e escuridão,
O meu sangue recusou-se a acreditar
Na escuridão e no silêncio e nas trevas...
Como era possível que o Céu que eu via
Forrado dum azul nitidíssimo,
Pudesse deixar-se vencer por uma realização
Fora do alcance de todo o azul?
Como era possível que a serenidade
Que não conhecia o imprevisto das nuvens
Nem a ameaça duma contracção crepuscular,
Sucumbisse sob o impulso inesperado
De um assalto nocturno?
E enquanto as interrogações da minha dor
Devassavam o mar e a terra, o Céu e o inferno,
Os condenados e os anjos,
A noite multiplicava-se na sua própria intensidade
E, numa progressão irreprimível,
Naufragava tudo em escuridão e trevas e silêncio...
Depois, à medida que os perfis perdiam nitidez
E ganhavam nebulosidade,
O Céu - aquele Céu de onde veio a noite
E onde eu supunha que só nascia a manhã -
Começou a ficar longe, muito longe,
Além da possibilidade dos meus olhos
E da extensão dos meus braços.
Foi em vão que desdobrei o ângulo dos meus braços
Na recta do seu humano comprimento;
Foi em vão que exigi dos meus olhos limitados
O insensato esforço de ultrapassar a distância.
A noite caíra, impiedosa e fechada,
Alheia à tentativa da minha salvação
E ao desespero da minha fome de manhã.
Então gritei até ter voz
E a boca soube-me ao gosto mortal
Das árvores derrubadas
E dos muros caídos.
Na loucura dos movimentos sem directriz,
Estendi as mãos e as mãos apenas me trouxeram
A ausência das Estrelas
E a certeza dos escombros.
Atirada de encontro à surpresa duma superfície rochosa,
Amortalhada no pó dum caminho que não era o meu,
Os olhos afogados num pranto
Que eu nunca pensara chorar,
Fiquei-me inerte, à espera da Eternidade,
Porque a noite inexorável e tremenda
Viera de onde eu julgava que só nascia a manhã,
Ofendendo a dignidade dos homens
E a misericórdia do Senhor. 




DA MÁSCARA ARRANCADA


Esta cor outonal que me ensombra a alma
E os olhos e os movimentos e o sangue,
Não vem do tom vagamente cinzento
Da manhã acabada de nascer.
(As raízes estão para lá
Dos primeiros prenúncios do Inverno,
A uma distância onde não podem chegar as raízes.)
Nasce da fundura abismal do Pensamento,
Da origem de uma angústia
Que me desertou do mundo.
A palidez que me empobrece o rosto,
Não vem do contágio visual das folhas que,
Principiando a despir a arrogância das árvores,
Começam a vestir a humildade do chão.
Não é porque o vento encrespa a tranquilidade
Das águas que dormiam o sono do Estio,
Que o meu pranto se derramou
Numa rebentação de maré viva.
Foi porque o meu Destino disse "É assim!"
E eu nada pude fazer
Para que assim não fosse;
Foi porque a Hora acabou de chegar
E eu não tive forças para impedir
Que o Tempo a trouxesse;
Foi porque a noite venceu a resistência do dia
- Que as minhas mãos eram demasiadamente humanas
Para suster a marcha do Sol.
A tristeza não vem das coisas
Para o diluído recorte do meu sonho:
Nasce da minha imposta ruína
Para o nítido recorte das coisas.
Já não chega o esforço da aparência,
A chaga sem cicatrização
Duma atitude postiça.
Agora, é a dor porque é dor
E o inferno, porque é inferno.
Agora, são as asas vazias de Céu
E o Céu vazio de asas.
Agora, é o minuto da minha íntima verdade,
Da súbita revelação do meu despedaçamento,
Sem que os homens afirmem o meu mal
Ou tenham a coragem de o negar!




DA IGNORÂNCIA TOTAL



Sinto que me dói
(E sinto-o na maior fundura!)
Mas não sei onde,
Não sei onde!
Se fosse no coração que me doesse,
Que alegria seria a minha
Arrancando o coração!
Se fosse nos olhos que me doesse,
Como eu seria feliz
Cegando os meus tristes olhos!
Se fosse na alma que me doesse,
Que orgulho seria o meu
Matando a minha própria alma!
Estivesse a dor onde estivesse,
Eu a destruiria para sempre
E com ela tudo quanto me resta do mundo
E da Vida e dos outros e de mim...!
Senhor! Senhor!
Se és Tu que ordenas que me doa,
Por que escondes o sítio onde me dói?




DO ARGUMENTO IRREFUTÁVEL



Não é só da certeza nem da distância
Nem da impossibilidade...
É deste caminho que leva a sítio nenhum
E por onde nunca regressou ninguém!
É antes desta voz que não oiço
Mas que tem um timbre tão oceânico,
Que enche o mundo de marés de som.
Sei lá!
Talvez seja de mim,
Da ousadia que não inicio,
Da iniciativa que não ouso...
Sinto no meu sangue um tom de cinza
Que me sufoca nas artérias
A altura da mais íntima labareda.
Sei lá!
Que infinito cansaço
Dos passos que nunca dei,
Dos movimentos que nunca fiz!
Ah! esta luz confusa, hesitante, crepuscular,
Que já não chega para ser dia
E que ainda é de mais para ser noite!
Como pesam as asas que se despedem do Céu
E os olhos que se recusam ao contacto do sono!
Como entristece ver as folhas tombadas
E as flores tombadas
E as horas tombadas...
Sei lá!
Não é só da certeza nem da distância
Nem da impossibilidade...
Talvez da luz já quase toda sombra...
Do eco dos passos morrendo ao longe
No abandono das ruas...
Será fome de pão a acidez
Que me contrai a boca
Ou fome de amor o desespero
Que me chicoteia a alma?
Sei lá!
De positivo apenas sei que vim ao mundo,
Que vivo no mundo e que sou do mundo
E que os meus Irmãos me não perdoam
Que eu seja humana
- Humana sem exibidas ascensões divinas
- Humana de carne e do sangue do primeiro Homem
- Humana com todas as quedas e todos os heroísmos
E todas as audácias e todas as cobardias
Da minha própria humanidade!



DA LUZ INSUFICIENTE

O dia amanheceu nos olhos abertos das Estrelas
Para a noite fechada dos meus olhos.
Primeiro, foi uma aparição de luz titubeante,
Depois, definiu-se em volume e sonoridade e cor:
Gritou na alegria acordada das asas,
Avivou os verdes do mar,
Os azuis do Céu
E os vermelhos das papoilas.
No entanto, no meio da luz excessiva
E da exuberância dos coloridos
E da grandiosidade das formas,
Eu permaneço isenta do contacto da luz,
Sem o mínimo sentido de aceitação,
Antes na posse real da minha noite absurda.
Não é pela insidência do Sol
Que os meus cabelos são mais loiros
Ou a minha angústia é menos sombra:
De dentro é que me vem o mal que me anoitece.
Não há imposição de luz que vença a minha noite
- Que a minha noite vem de muito longe,
Talvez desde que os átomos se agregaram
E o Tempo se desdobrou em séculos.
Logo, abra-se a manhã em voos e promessas,
Que eu resistirei ao aceno da Esperança
E ao convite da ascensão.
Venha o Sol outra vez, venham milhões de Sóis,
Que, indiferente a qualquer luz,
Eu continuarei boiando
À flor da minha noite
Num movimento flutuante
De alga arrancada.



DA MANHÃ IMPRESSENTIDA


O silêncio veste-me os ombros
Dum manto que me asfixia a ânsia dos movimentos.
Toda a tentativa de libertação
Se esvai de encontro à solidão da noite
E do pensamento acordado.
As Estrelas falam tão baixo,
Que mal se ouve a sua voz de luz
Para lá da presença do luar.
As horas tombam sem cocorro,
Levando consigo os momentos vividos
E as grandes esperas sem humana realização.
Na verticalidade das paredes do quarto
Projecta-se a certeza do meu isolamento
E a sucessão contínua dos minutos
Vencidos pelo Tempo.
Pudesse eu quebrar as algemas
Que me dilaceram os pulsos
E que apenas existem na dor que me provocam!
Pudesse eu perder-me na raiz de qualquer sonho,
Que, de tão absoluto,
Ultrapassa todos os impossíveis
E diminui todas as distâncias!
Pudesse eu entregar-me ao capricho do Vento,
Quando o Vento chega dum longe sem direcção
Carregado da música dos pássaros
E do cheiro violento da resina!
Mas o silêncio veste-me os ombros
Dum manto que me asfixia.
E assim, deixo-me ficar numa pausa de sombra,
Alheia à progressão das horas,
Inerte à lenta agonia da noite,
Insensível à aproximação da Eternidade,
Até que o Sol, num grito de vitória,
Entoe a sinfonia da manhã!



DA DIRECÇÃO IRREVOGÁVEL


Ainda que todas as montanhas se me antepusessem,
O meu caminho seria este
E por ele seguirei até o fim.
Mesmo que aos meus pés se desdobrasse
A impossibilidade das areias sem cálculo,
O pavor desértico da extensão
Não interromperia a viagem iniciada.
Nem que a Vida me estendesse os braços
De todas as tentações;
Nem mesmo que o segredo da Morte
Me fosse revelado no encontro dos primeiros espantos
E das últimas tentativas.
Quisesse defender-me qualquer indefinida ternura
Ou o que ainda me resta de protecção
Do ventre maternal.
Tudo se despedaçaria de encontro
Às muralhas invencíveis
Dum Destino nascido antes de mim.
Quando uma rosa floresce no jardim em sossego,
Já traz no segredo da corola
A hora certa a que se desfolhará.
Não é o esforço dos remos que dá direcção ao barco,
Mas sim o ímpeto da maré.
Deixa! Não tentes afastar-me do meu caminho de trevas
Oferecendo à recusa dos meus passos
Uma estrada encharcada de Sol.
Não é por acenderes seja que chama for,
Que eu deixo de sentir o frio que trouxe
Não sei de que incriado mundo.
Deixa! Por mais Céu que ofereças
Às asas que não tenho,
Nunca conseguirás arrancar-me
Ao sítio onde os meus pés têm raízes.
Deixa! Não procures cingir-me ao teu desejo,
Porque eu hei-de viver o meu destino
Presa a este caminho que é só meu
E que me há-de levar ao mesmo fim
Das feras e dos homens e dos pássaros... 



DA VISÃO IRREALIZÁVEL


Se a luz viesse inteira da dádiva do Sol
E o dia nascesse liberto de nuvens
E de pressentimentos;
Se o sangue que vibra em cada veia
Obedecesse ao mesmo ritmo
No coração das aves e das ondas e dos seres;
Se as escarpas algemadas ao recorte do litoral
Não olhassem com um ódio rochoso
O voo sem algemas das gaivotas;
Se o vento não gritasse tão e tão alto
E deixasse ouvir no fundo da noite
O silêncio dum luar a prumo;
Se os caminhos tivessem só a direcção sonhada
E não servissem para levar quase sempre
Os que não querem ir
E trazer quase sempre
Os que desejam ficar;
Se a transparência do ar
Não estivesse maculada
Pela sombra dos mil apelos sem resposta
E pela angústia dos que não podem responder;
Se os jardins florissem para todos os olhos
E para todas as mãos
E para todos os deslumbramentos,
Sem grades nem domínios nem exclusões,
As garras seriam asas
E o mundo seria Céu
E os homens seriam deuses!



DA DIVINA HUMANIDADE

Irmão...
             (Eu ainda te chamo "Irmão"!)
...Se tu soubesses que nos braços que me paraste
Palpita o movimento universal
Das poeiras que o vento leva
E das folhas que o vento traz...
Se tu soubesses que na garganta que me calaste
Pulsa a música das águas nascidas
No ventre da terra
E no seio das nuvens...
Se tu soubesses que nas mãos que me interrompeste
Vibra o gesto diviníssimo dos semeadores
E o maternal contorno de todas as bênçãos...
Se tu soubeste que nos passos que me proibiste
Canta a vitória dos caminhos percorridos
E a ousadia de viagens por iniciar...
Se tu soubesses que no corpo que me despedaçaste
Lateja a promessa de Vida futura
E a recordação da obra dum Deus,
Talvez te ajoelhasses quando eu passo
E não tivesses feito o que fizeste...
..."Irmão"!




DA PERFEITA COMPARAÇÃO


O Tempo não me traz esquecimento ou lenitivo:
Vem-me sòmente para confirmar.
Da cadência das horas esgotadas
Não nasce a bruma que esbate as suposições
Mas o traço firme que recorta as certezas.
Não é porque os dias me afastem do ponto inicial,
Que eu esqueço o impulso que originou a viagem.
A chuva indecisa e medrosa deste começo de Outono
Não chega para desfazer na pele enrugada da terra
As pegadas dos que foram além
Das fonteiras do caminho...
Ainda que a manhã ultrapassasse a curva das trevas,
Nem o deslumbramento do Sol
Conseguiria afastar do meu sangue
A existência da noite.
Pudesse eu olhar para a altura das folhas
Sem me lembrar da profundidade a que estão as raízes!
Conseguisse eu absorver-me na contemplação das rosas
E esquecer a verdade agudíssima dos espinhos!
Mas nada me chama para longe de mim
Nem consegue modificar-me a expressão
De barco amarrado ao cais.
Ando, falo, respiro, durmo, acordo,
- Que os soluços da minha dor eternizam-se
No silêncio do meu coração despedaçado,
Como a voz do mar permanece cheia e viva
Dentro do vazio absoluto duma concha morta.




DO CONTACTO DERRADEIRO


Quando a Grande Amada vier,
Mudará em dia a noite dos meus olhos
E em silêncio o meu grito de socorro.
Quando a Grande Amada vier,
Há-de entregar-me as suas duas mãos
E deixar suspenso entre o Céu e a terra
O cansaço das minhas.
Virá numa hora sem possíveis adiamentos
E anulará da face do mundo
A curva inacabada do meu sonho
E todos os ângulos da minha existência.
Quando a Grande Amada vier,
Fecundará a serenidade do meu corpo
Transformando o meu sangue ainda quente
Na seiva infantil das primeiras rosas.
Com a maternal ternura dos seus dedos
Descerá as minhas pálpebras vencidas
E comporá os meus cabelos desalinhados
Pela última tentativa do vento.
Quando a Grande Amada vier,
No momento em que limitar
A incerteza do meu Tempo,
Entregará à minha Eternidade recém-nascida
A certeza ilimitada do seu.
Há-de curvar-se amorosamente sobre o meu leito
Ainda humano da minha última angústia
E dar às minhas feições convulsionadas
O contorno indeciso de qualquer aparência divina.
E se alguém estiver bebendo o meu derradeiro alento
(E eu sei lá se alguém estará bebendo
O meu derradeiro alento!)
Verá desenhar-se no mármore do meu rosto
O esboço dum sorriso cinzelado
E na expressão das minhas feições imóveis
Um movimento de bem-aventurança
E na algidez da minha carne acabada
O caminho renovado dum fogo interior,
Quando a Grande Amada vier,
QUANDO A GRANDE BEM AMADA VIER!



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